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“Um dia” em quatro dias

22/06/2011

E esta semana ele apareceu: o terceiro livro que me fez chorar copiosamente na vida. Chama-se “Um dia” e entra na lista antes ocupada por “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, e “Reparação”, de Ian McEwan. Tenho plena consciência de que o romance do inglês David Nicholls – que em breve estreia na tela grande com Anne Hathaway – não tem direito nem a figurar na mesma frase que os outros dois. Mas é preciso admitir: não são apenas as obras-primas que mexem com a gente. Ainda bem, eu acho.

Se alguém ainda não sabe, “Um dia” narra 20 anos na história de Emma Morley e Dexter Mayhew. No início, jovenzinhos que 22 anos que se conhecem na festa de formatura da faculdade, eles desenvolvem uma relação profunda e complicada de amizade e amor. Nada muito diferente do que se costuma ver na “vida real” (odeio essa expressão!) e é aí que está um dos pontos fortes do livro. É quase impossível não se ver em um dos personagens – ou em todos eles, em algum momento. No meu caso, admito, rolou uma obsessão: tive a certeza de que David Nicholls me conhece, tamanha foi a identificação. Mas esse post não é sobre mim e sim sobre o livro. Portanto, vamos adiante.

As qualidades do romance são inegáveis. Colecionando críticas positivas mundo afora, a história é engenhosa ao escolher um dia específico – 15 de julho – e dedicar um capítulo a cada ano, mostrando a evolução do relacionamento dos protagonistas por meio de momentos pontuais (@oclebermachado feelings – perdoem a piada interna) de suas vidas. Bem construídos e verossímeis, os personagens são cativantes e soam como alguém com quem você poderia esbarrar na rua; os diálogos são engraçados, espirituosos e, ao mesmo tempo, tocantes.

Maaas os defeitos também estão ali. Os erros de tradução são muitos e irritantes. A história se arrasta um pouco quando não há interação entre Emma e Dexter. E, na minha humilde opinião, o pior: o final é um tantinho piegas e previsível para qualquer um que já tenha visto um punhado de filmes românticos (e a partir daqui vai rolar um MEGA SPOILER. se não quer saber, pule para o parágrafo seguinte). A regra é clara: sempre que o casal enfrenta uma série de problemas mas fica junto e feliz muito antes de terminar a história, há dois finais comumente utilizados. O primeiro é o mais clássico: há um conflito (descobre-se um amante, um segredo terrível ou qualquer coisa que abale as estruturas da felicidade reinante), mas o casal consegue superá-lo e segue rumo ao final feliz. O segundo é um pouco menos usual, mas também aparece com frequência: a morte. É uma fatalidade, um elemento externo o que põe fim ao relacionamento. Uma saída fácil para uma trama que foi tão realista e dura durante todo seu percurso. E isso irritou um pouco. Talvez o mais adequado – ou melhor, o final que eu escolheria – seria tentar uma terceira via. Depois de casados, Dexter voltaria a ser o velho babaca e alcoolatra de sempre, trairia Emma e acabaria com a felicidade dos dois. Ou pior: depois de tudo, eles perceberiam que passaram 20 anos idealizando a própria relação e, quando finalmente ficaram juntos, não deu certo. Não era o que esperavam. É verdade, talvez isso fizesse os leitores cortarem os pulsos. Mas, sinceramente, me pareceria mais honesto.

No fim, apesar do parágrafo das reclamações ter ficado bem maior que o das qualidades, a verdade é que amei o livro. Os lencinhos já estão preparados para a estreia no cinema. O trailer:

Ópera, novo livro, lágrimas: eu e Ian McEwan

20/03/2010

Esta semana, pela segunda vez na vida, um livro me fez chorar. Da primeira vez que aconteceu, eu me lembro direitinho da última frase: “porque uma família condenada a cem anos de solidão não pode ter uma segunda chance sobre a terra”. Gabriel Garcia Márquez, o livrinho de capa dura de uma dessas coleções de jornal, e eu no ônibus a caminho da faculdade. Um clássico da choradeira. Desta vez, o responsável pelas lágrimas foi o inglês Ian McEwan e seu “Reparação”. Acho que poucas vezes me deparei com uma história tão abrangentemente triste: mocinhos ou bandidos, o sofrimento vem para todos, sem distinção.

O filme ainda não vi. E sempre tentei não ler nada sobre ele na internet. Esperei até conseguir ler o livro porque não queria estragar a experiência. Mas eis que hoje, dois dias depois de terminar “Reparação”, encontrei na internet uma série de notícias interessantes sobre McEwan e a obra. A primeira é que “Reparação” vai virar ópera. O roteiro não fica a cargo do escritor; será escrito pelo poeta Craig Raine. Mas McEwan está envolvido na produção e vai dar seus pitacos. Não sou nenhuma especialista em óperas, nem de longe, mas sem dúvida o texto tem força dramática suficiente para virar um belo espetáculo. O próprio Mc Ewan dá uma sonhada muito boa no texto do Guardian: “Se você pensar em uma ópera de grandes proporções, imagine um grupo de 380 mil soldados nas praias de Dunquerque. Seria um belo coro”.

A outra notícia, também do Guardian, é o lançamento do novo livro do escritor, “Solar”. Segundo o crítico, o estilo é mais leve e engraçado mas, de alguma forma, ainda é McEwan. Até porque usar a história de vida de um físico fracassado, frustrado e consumista para falar sobre o aquecimento global me parece mesmo a cara dele.