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A igreja de John Coltrane

17/05/2011

Foram mais de três meses de indesculpável abandono, mas, Brasil, eu voltei! E depois de um mês viajando pela América, aproveitarei o espaço do humilde bloguinho para compartilhar com vocês os highlights desta jornada.

Primeira parada: São Francisco. Muito mais do que o estereótipo da “cidade gay”, este pedaço da Califórnia dá a qualquer um que chegue aos EUA uma excelente primeira impressão. Ensolarado, porém frio (não imagino clima melhor neste mundo), é habitado por alguns dos melhores exemplares da cultura ianque. Educados, sorridentes, prestativos, liberais, os san franciscans são possivelmente o povo mais legal que já conheci. Creio que só desta cidade poderia sair o tema deste primeiro post.

Quando disse aos amigos que iria à missa no domingo, a reação de surpresa foi geral. Mas não era uma missa qualquer: fundada em 1971, a Saint John Will-I-Am Coltrane African Orthodox Church presta devoção a um dos principais nomes do jazz. Músico de fortes convicções religiosas, que foram refletidas em suas canções, John Coltrane é, de verdade, um santo: foi canonizado e é encarado pelos ministros da igreja como um verdadeiro mensageiro de Deus.

Desenhos do rosto de Coltrane decoram a parede da sede, localizada numa pequena salinha na Rua Fillmore, na área conhecida como Pacific Heights. Não muito mais de 30 cadeiras abrigam os devotos e curiosos de diversas partes do mundo. Apenas naquele dia, o livro de presença registrava assinaturas da Suécia, Austrália e de um tal Brasil. Logo ao chegar, os espectadores são recebidos por um senhor simpático, que os orienta a tomarem seus lugares e mostra onde ficam os instrumentos extras. Sim, nesta missa, a “plateia” é incentivada a interagir. Há, inclusive, quem leve seus próprios chocalhos e afins de casa. No altar (ou melhor, no palco), uma bateria, um teclado, um contrabaixo e um saxofone aguardam os “ministers of sound“, como eles mesmos se definem. Todos ocupam seus lugares, vestidos com roupas civis. As exceções são a reverenda Wanika King, toda de preto, com uma espécie de amito (aquele pano branco que os padres usam no pescoço), que se posiciona ao lado do contrabaixo, e o arcebispo Franzo King, com uma túnica roxa e saxofone na mão. Ao lado de todos eles, ainda estão uma cantora e duas backing vocals. Tudo pronto para começar.

A primeira metade da missa é totalmente musical. Canções como “Attaining” e “A love supreme” são executadas pela (boa, aliás) banda, junto com um conjunto de “aleluias” e outras frases religiosas. O ritmo é tão bom que basta uma olhada na plateia para ver todos dançando. Ou, pelo menos, balançando desajeitadamente de um lado para outro. No fundo da sala, alguns se aventuram com os instrumentos. Até para o mais ateu dos ateus é fácil entrar no clima. A segunda metade da atração é mais parecida com uma missa convencional. O arcebispo toma a palavra e disserta sobre um assunto qualquer à escolha. Por sorte, no dia em que assisti, o tema foi o próprio John Coltrane e como é possível transcender espiritualmente ouvindo sua música. O cara ainda era bem humorado e pregava conceitos bem liberais como a tolerância e o amor entre as pessoas. Quem diria que uma missa poderia ser um dos programas mais interessantes da viagem…

Quem quiser conhecer mais sobre a Saint John Will-I-Am Coltrane African Orthodox Church, pode entrar no site. A missa acontece todos os domingos, ao meio-dia. Inclui aí no seu roteiro.

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